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No coração do Pantanal, COP15 coloca MS no debate global sobre espécies migratórias

Conferência da ONU deve reunir mais de 100 países e cerca de 2 mil participantes

Osvaldo Sato

Campo Grande começa a receber, nos próximos dias, um dos principais eventos internacionais sobre biodiversidade e conservação de espécies, a COP15 da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres, que deve reunir representantes de mais de 100 países e cerca de 2 mil participantes. Isso, porém, não parece ter gerado uma grande mobilização local entre os moradores.

Apesar do porte, a movimentação é discreta se comparada à recente COP30 em Belém, algo que especialistas atribuem ao perfil mais técnico da conferência, diferentemente de encontros como a COP do Clima. A avaliação é reforçada pelo diretor de comunicação e engajamento da SOS Pantanal, Gustavo Figueroa. Segundo ele, a menor repercussão está ligada ao próprio tema. “O fato de não ter tido uma repercussão grande, acredito que é porque poucas pessoas sabem ou se interessam por esse tema, que é muito mais específico”, afirmou.

O evento ocorre entre 23 e 29 de março, em diversos pontos da cidade, na ‘Blue Zone’, instalada no Bosque Expo, e no Bioparque Pantanal. Há ainda a realização da COP15 POP, evento de divulgação científica prevista para ser realizada durante a semana na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).

De forma geral, a COP15 reúne governos, cientistas e organizações ambientais para discutir estratégias de proteção da fauna migratória, espécies que atravessam países e continentes ao longo da vida, como aves, baleias e tartarugas marinhas. O objetivo é estabelecer acordos internacionais que reduzam ameaças, como perda de habitat, caça ilegal e mudanças climáticas.

Criada em 1979, a convenção conta hoje com 132 países e mais de mil espécies listadas para proteção. Diferentemente das conferências do clima, que ocorrem todos os anos, esse encontro acontece a cada três anos e tem foco mais específico na biodiversidade.

Perfil técnico

Para Figueroa, essa diferença ajuda a explicar o contraste com a COP do Clima. “A COP Clima tem uma divulgação massiva, envolve vários setores da sociedade. Já a de espécies migratórias é um setor muito mais seleto, mais voltado para quem trabalha com biodiversidade”, explicou. Ainda assim, ele ressalta que a estrutura é semelhante, com negociações entre países e definição de compromissos conjuntos.

A escolha de Campo Grande como sede também é vista como estratégica por pesquisadores locais, como afirma o professor do Inbio (Instituto de Biociências) da UFMS e pesquisador da área de Ecologia e Conservação, Rudi Ricardo Laps. Ele avalia que sediar a conferência representa reconhecimento internacional. “Eu acho que é uma honra para a gente estar sediando uma conferência como essa. A anterior foi em Bonn, na Alemanha, onde surgiu toda essa convenção das espécies migratórias”, afirmou.

Segundo ele, além da infraestrutura, o Pantanal foi decisivo na escolha. “São escolhidas cidades que têm uma infraestrutura boa para receber os pesquisadores e que têm alguma coisa de atraente — no nosso caso, principalmente, o Pantanal”, explicou.

Rudi Laps é pesquisador e professor da UFMS. (Foto: Henrique Arakaki, Midiamax)

Pantanal em destaque

A posição estratégica do Estado em relação ao bioma é apontada como um dos principais fatores para sediar o evento. Considerado um dos maiores corredores naturais para espécies migratórias do mundo, o Pantanal abriga animais que percorrem longas distâncias ao longo da vida.

“Tanto espécies que imigram, as tradicionais, que vêm da Patagônia ou do hemisfério Norte, encontram no Pantanal um lugar seguro para se reproduzirem, para se alimentarem, ou até como destino final”, destacou Figueroa.

Para Laps, a conferência também tem impacto direto nas políticas locais de conservação. “A coisa principal que a gente vai discutir aqui são acordos internacionais para tentar que as legislações e as políticas públicas de conservação sejam efetivas”, disse. Ele lembra que o Pantanal é compartilhado por três países, o que exige ações conjuntas. “É muito importante que Brasil, Bolívia e Paraguai tenham ações concretas juntas para conservar o bioma.”

O pesquisador também chama atenção para a importância de preservar diferentes ambientes dentro do Pantanal. “A gente sempre pensa em espécies migratórias no ambiente aquático, mas também há muitas espécies que vêm por causa dos campos nativos, para se alimentar e até se reproduzir. Esses ambientes precisam ser preservados”, afirmou. Segundo ele, mecanismos como compensação ambiental podem ajudar a incentivar a conservação em propriedades privadas.

Biólogo Gustavo Figueroa é diretor de comunicação e engajamento da SOS Pantanal. (Foto: Reprodução, Rede Social)

Biodiversidade urbana

Além do Pantanal, Campo Grande também se destaca pela biodiversidade urbana, especialmente de aves. “A gente é uma das capitais da observação de aves. Talvez não tenha outra cidade em que, em ambiente urbano, a diversidade seja tão grande e tão fácil de ver”, disse Laps.

Essa característica deve atrair visitantes durante o evento. Segundo o pesquisador, há programação voltada à observação de aves, incluindo trilhas organizadas pela universidade. “Temos grupos que vão receber essas pessoas interessadas em observar aves e também trilhas abertas ao público dentro da universidade”, explicou. As atividades são gratuitas e abertas à população ao longo da semana, com exceção de alguns eventos acadêmicos.

A SOS Pantanal também participa da programação com debates e painéis sobre manejo integrado do fogo e convivência entre humanos e grandes predadores. “A gente vai participar com alguns painéis que propusemos e também como convidados em outros”, afirmou Figueroa.

Entre os temas em discussão, está a proteção de espécies em diferentes países. “São espécies que, em um país, podem ser caçadas e, em outro, não. Então, eles buscam ampliar essa proteção”, explicou. Nesse cenário, a cooperação internacional é essencial. “As espécies não enxergam fronteiras criadas pelo homem. Não tem como uma espécie ser protegida em um país e no outro não”, destacou.

Ele também citou a onça-pintada como exemplo de espécie que exige cooperação entre países. “Não é uma espécie migratória no sentido estrito, mas tem deslocamento transfronteiriço, passando por vários países”, disse.

Brasil protagonista

Com a realização da COP15 em Campo Grande, o Brasil assume a presidência da conferência pelos próximos três anos, o que, segundo Figueroa, representa uma oportunidade estratégica. “É uma grande chance de o Brasil ser propositivo, colocar propostas importantes e pautar questões que não foram discutidas em outras edições”, afirmou.

A estrutura do evento será concentrada no Bosque Expo, que funcionará como área oficial de negociações da ONU. A programação também inclui atividades no Bioparque Pantanal e na UFMS, com apresentações, debates e encontros técnicos.

Mesmo com pouca visibilidade nas ruas, a expectativa é de que a COP15 deixe um legado importante para o Estado, tanto na projeção internacional quanto no fortalecimento das políticas de conservação.

Confira a programação oficial no site do evento. Confira também a programação da COP15 POP no site da UFMS.

Onça-pintada está na lista de espécies migratórias. (Foto: Gustavo Figueroa)
Midiamax

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