Indústria de celulose e logística mudam perfil migratório de Mato Grosso do Sul
Expansão industrial e avanço dos serviços ampliam a demanda por profissionais qualificados e transformam a dinâmica econômica e urbana do estado

Durante décadas, a expansão da fronteira agrícola foi um dos principais fatores de atração de migrantes para Mato Grosso do Sul. Agora, o crescimento da indústria de celulose, as demandas de logística e o avanço de atividades ligadas à tecnologia e aos serviços começam a transformar o perfil de quem chega ao estado.
A mudança acompanha a evolução da economia sul-mato-grossense. Se, inicialmente, a expansão da agricultura empresarial atraiu pessoas interessadas em produzir e investir no campo, a nova etapa de desenvolvimento também exige profissionais qualificados para atuar em empresas, serviços especializados e atividades urbanas.
A avaliação é do professor de Geografia Luiz Fernando Cenora, que analisa a formação de Mato Grosso do Sul a partir das diferentes ondas de desenvolvimento que marcaram sua história.
“É um estado que atrai pessoas. Atrai pessoas pelos seus momentos econômicos”, afirma.
DA EXPANSÃO AGRÍCOLA À ECONOMIA DE SERVIÇOS
Após a criação do estado, em 1977, políticas de incentivo à atividade agropecuária contribuíram para impulsionar a chegada de migrantes, principalmente da Região Sul, além de pessoas de São Paulo, Minas Gerais e Bahia.
Esse movimento ajudou a consolidar a imagem de Mato Grosso do Sul como um estado essencialmente agrário. No entanto, segundo Cenora, o perfil econômico e social da região passa por novas transformações.
O avanço da tecnologia no campo reduziu a necessidade de parte da mão de obra tradicional e ampliou a procura por serviços especializados. Paralelamente, a expansão industrial e a construção de estruturas logísticas abrem novas oportunidades de trabalho.
“Hoje não é esse perfil que está vindo. É um perfil qualificado para atender às demandas de serviços, às demandas de logística, esse setor de logística de tecnologia da informação”, explica o historiador.
A expansão da indústria de celulose e as atividades relacionadas ao Corredor Bioceânico estão entre os fatores que, na avaliação do professor, contribuem para essa nova etapa do desenvolvimento regional.
A CELULOSE E A FORMAÇÃO DE UM EIXO INDUSTRIAL
As transformações econômicas ocorrem de maneira distinta entre as regiões de Mato Grosso do Sul. Três Lagoas, por exemplo, reúne condições estratégicas para a atividade industrial, com infraestrutura de transporte e proximidade com São Paulo. A ferrovia e a hidrovia também contribuíram para o desenvolvimento urbano e para a consolidação de um eixo associado à indústria de celulose.
Campo Grande, por sua vez, concentra atividades de serviços e acompanha o crescimento das demandas urbanas. Dourados mantém uma relação histórica com a produção agropecuária, enquanto Corumbá tem forte vínculo com a cultura pantaneira e a região de fronteira. Em Ponta Porã, a proximidade com o Paraguai impulsiona o comércio.
Essa diversidade evidencia que o desenvolvimento econômico não ocorre de maneira uniforme. Cada região combina características históricas, infraestrutura e atividades produtivas próprias, que influenciam a atração de moradores e a organização das cidades.
NOVAS GERAÇÕES AMPLIAM A DEMANDA POR CULTURA E LAZER
As mudanças na economia também repercutem no cotidiano da população. Segundo Cenora, migrantes que chegam ao estado em busca de trabalho nem sempre priorizam, inicialmente, atividades culturais e de entretenimento. Esse cenário tende a mudar à medida que as famílias se estabelecem e as novas gerações constroem suas vidas na região.
“Quem vem pra ganhar dinheiro vem pra trabalhar e deixa de segundo plano esse complemento cultural. Mas os filhos, os descendentes, já exigem”, afirma.
A presença dessas novas gerações contribui para ampliar a procura por restaurantes, programação cultural, entretenimento e outras opções de lazer. O movimento acompanha a criação de vínculos mais duradouros com o território: quem chega para trabalhar pode, com o tempo, formar família, estabelecer raízes e demandar uma estrutura urbana mais diversificada.
CRESCIMENTO ECONÔMICO TAMBÉM TRAZ DESAFIOS
Na avaliação de Cenora, a expansão econômica não elimina os problemas sociais que acompanham a formação de Mato Grosso do Sul. O avanço das atividades produtivas convive com desigualdades históricas, conflitos fundiários e dificuldades enfrentadas por comunidades que já viviam no território antes dos grandes ciclos de desenvolvimento.
Outro desafio é ampliar a formação de trabalhadores qualificados no próprio estado, de modo a atender às necessidades das empresas e dos serviços especializados que acompanham a industrialização.
Ao completar 49 anos, Mato Grosso do Sul reúne diferentes etapas de transformação econômica: da atividade ligada à erva-mate e à ferrovia à expansão agropecuária e, mais recentemente, ao crescimento da indústria, da logística e dos serviços.
Para Cenora, compreender esse percurso significa reconhecer que os ciclos econômicos modificam o perfil dos moradores, atraem novos investimentos e transformam as cidades, mas também exigem atenção às consequências sociais dessas mudanças.
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