AgronegóciosCidadesDestaquesEconomiaGeralMato Grosso do SulMeio AmbienteNegócios

Celulose brasileira entra em 2026 entre volatilidade global e vantagem competitiva estrutural

Análise de Rafael Barišauskas aponta custos florestais eficientes, escala e reputação como pilares do setor, em meio a incertezas geopolíticas, câmbio sensível e maior volatilidade de preços

Portal Celulose

Em um cenário marcado por tensões geopolíticas, fragmentação das cadeias globais e volatilidade cambial, o mercado de celulose segue avançando, ainda que de forma menos linear. Para o economista Rafael Barišauskas, o setor chega a 2026 combinando fundamentos sólidos no Brasil com um ambiente externo mais instável, que exige maior capacidade de adaptação das empresas.

DEMANDA GLOBAL CRESCE, MAS COM DESVIOS

Ao avaliar a demanda global da commodity, Barišauskas destaca que o crescimento continua, mas com desvios cada vez mais frequentes ao longo do caminho. “A demanda global segue crescendo, mas eu não diria que ela cresce ‘em linha reta’. Tarifas e tensões geopolíticas criam desvios, encarecem rotas e tornam o mercado mais sujeito a rupturas inesperadas”, afirma. Ainda assim, ele ressalta a posição estratégica do país nesse contexto: “A celulose brasileira segue bem posicionada: temos custo florestal eficiente, escala e reputação de fornecimento confiável”.

Esse posicionamento, no entanto, não elimina os desafios impostos pela reorganização dos fluxos internacionais. Segundo Barišauskas, “o desafio não está somente na competitividade, mas na forma como os fluxos globais vão se reorganizar, e isso hoje é tanto político quanto econômico”.

PREÇOS SOB PRESSÃO E MAIOR VOLATILIDADE

Para 2026, a expectativa também aponta para maior instabilidade nos preços da commodity. Para o especialista, o atual nível de fragmentação das cadeias de valor, combinado à sensibilidade do câmbio e a possíveis ajustes de oferta, tende a ampliar as oscilações. “A minha aposta é que veremos mais variação”, diz. E completa: “Não vejo 2026 como um ano de acomodação; vejo como um ano em que fundamentos e geopolítica vão disputar o volante o tempo todo”.

ESTRATÉGIA DEFENSIVA E FOCO EM EFICIÊNCIA NO BRASIL

No Brasil, esse ambiente mais incerto se reflete diretamente nas decisões estratégicas das empresas do setor. Barišauskas observa que o momento é de cautela e seletividade, mesmo com a demanda sustentada por cadeias ligadas ao agronegócio. “O impacto é imediato: as empresas ficam mais seletivas e avessas a risco”, explica. Isso tende a limitar grandes projetos de expansão industrial no curto prazo, priorizando ganhos de eficiência. “Isso faz com que o setor aposte menos em grandes expansões industriais entre 2026-27 e mais em movimentos cirúrgicos e estratégicos, como automação, modernização, integração vertical, logística”, acrescenta.

Nesse contexto, a estratégia é clara: “Investir, sim; apostar, não”. Para o economista, “2026 será mais um ano de melhorar a casa do que de construir uma nova”, com uma possível retomada de investimentos mais robustos apenas em um horizonte de médio prazo.

SUSTENTABILIDADE COMO CRITÉRIO DE COMPETIÇÃO

Para a competitividade da celulose brasileira, a agenda de sustentabilidade surge como outro eixo central. Longe de perder força, ela se consolida como requisito de mercado. “Na minha avaliação, ela continua avançando, e não porque é ‘agenda verde’, mas porque virou critério de competição”, afirma. Ele lembra que, apesar de alguns recuos pontuais em determinadas cadeias, os mercados compradores seguem elevando o nível de exigência. “Os mercados compradores, especialmente os de maior valor, como a Europa não estão flexibilizando requisitos; estão endurecendo”, completa.

Com a aprovação do acordo Mercosul–União Europeia e a proximidade da entrada em vigor da EUDR, o tema ganha ainda mais peso estratégico. Para Rafael, o recado é direto: “Sustentabilidade, para o setor, já não é custo: é licença para operar e ferramenta de diferenciação. Essa tendência só vai ganhar força em 2026”.

Entre vantagens estruturais e um ambiente externo mais complexo, a celulose brasileira avança em 2026 navegando entre oportunidades e riscos, com eficiência operacional, disciplina estratégica e sustentabilidade no centro das decisões.

Foto: Freepik

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo